Um homem deitado, uma garrafa de vinho, botas de salto alto. Ele declama, sem se mover, frases de Marguerite Duras. Le bonheur, c'est-à-dire morte un peu. Ele senta-se ao falar da morte, do jogo, serve-se de vinho. Ao fundo, uma chanson française na voz de uma mulher melancólica preenche o vazio do palco. Ele calça as meias, os sapatos, bebe vinho; mete-se sobre os calcanhares, encara o céu e levanta-se. Vem para a boca de cena num passo feminino desengonçado, lento, pára e enfrenta os deuses. A morte, talvez. Volta-se, senta-se, retira os adereços femininos e deita-se, na mesma posição do início, os braços abertos estendidos sobre o palco, os joelhos dobrados apontando para o alto. Ao fundo, Duras fala em uma gravação incompreensível.
Nada. Para mim, nada aconteceu. Eu vi um menino com um bom trabalho corporal e, repito, bom, longe de ótimo. Eu vi uma tentativa de comunicar um universo interno, que não duvido seja rico, mas que permaneceu desconhecido. A descrição acima me toca mais do que a cena em si, mas isso aí é literatura, não teatro. O teatro deve comunicar, inquietar, incomodar. Bouleverser.
Estou sem parâmetros para julgar as coisas que tenho visto no Conservatório. O que eu acho entediante, as pessoas acham tocante, e vice-versa. Talvez seja cultural. J'en sais rien.

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